Como Pode a Fotografia Analógica Ser Salva?

Eu tenho investigado, se e como, a fotografia analógica pode ser salva em 9 meses, começando hoje. Estes são os meus resultados.

The author, Juho Leppänen, is an entrepreneur in Finland.

Olá. Eu sou o Juho, nasci na Finlândia. Eu tenho-me alimentado a mim e posteriormente à minha família a partir do movimento das câmaras analógica desde os meus 15 anos - já lá vão treze anos. No ano passado, perguntei-me a mim próprio se o meu bebé poderia fotografar em película quando tiver 15 anos, então decidi começar a investigar se daqui a 15 anos haverá fotografia analógica, e se sim, como será.

Durante os últimos 9 meses, entrevistei mais de 300 pessoas - tudo, desde CEO’s, críticos para a sobrevivência da indústria até analistas famosos da internet como Ian Ruhter e Bellamy, da Japan Camera Hunter, até um grupo de químicos Russos loucos e um adolescente de 17 anos de Singapura. O meu objectivo seria traçar um panorama global do futuro da fotografia analógica e descobrir como esta pode ser salva. A verdade é que não há uma resposta curta a esta pergunta.

A situação da fotografia analógica hoje em dia

Fui apenas eu e a minha bolha de redes sociais que me deram esperança, ou realmente há esperança?

Ultimamente houve uma grande quantidade de notícias positivas acerca do assunto, com grandes meios de comunicação, como Time e a ABC, com histórias sobre o retorno do filme e obviamente, a Kodak anunciou que estão a trazer filmes descontinuados de volta ao mercado devido ao aumento na procura, mais de 5% por ano.

Adox, Bergger, Cinestill, Ferrania, Foma, JCH e outros cineastas de boutique estão estão a realizar coisas novas realmente encantadoras. Diferentes tipos de campanhas no Kickstarter estão neste momento a ser financiadas e noutro tipo de registo, o enormesucesso da série Instax da Fujifilm está a chegar como o primeiro toque de fotografia analógica a uma multidão de adolescentes em todo o mundo.

No entanto, mesmo 9 meses atrás, muitas coisas positivas estavam a acontecer, e foi aí que eu tive que parar e pensar - fui só eu e a minha bolha de redes sociais que me deu esperança, ou realmente houve esperança?

Os velhos impérios da fotografia analógica desmoronaram-se

Polaroid camera and film packages.

Eu decidi descobrir o que pensava realmente a industria fotográfica, então entrei em escritórios e lojas de pessoas cujo trabalho teria sido servir a comunidade analógica durante décadas. Lá, eu encontrei uma atitude completamente diferente - até mesmo o melhor das principais empresas que deram vida à fotografia analógica durante décadas - como Noritsu - apenas se riu das minhas perguntas. Fui à Photokina 2016 e tentei encontrar grandes nomes da indústria que estavam prontos para a segunda vinda do analógico. Eu descobri que nenhum dos “grandes antigos peões” estavam interessados em servir a comunidade a qual eu testemunhei o crescimento online, entre hashtags como #believeinfilm, #filmisnotdead e assim por diante.

Foi duro conhecer essa realidade, e no principio fiquei de coração partido. Foi então que encontrei o lado positivo. Se não houver ”grandes antigos peões”, toda a indústria pode reconstruir-se novamente com base na paixão e não no dinheiro, como costumava acontecer.. A nova era é a que a nova geração digital pode desfrutar e, mais importante, pode ser construída por aqueles com paixão pelo analógico. Os pioneiros deste movimento podem ser vistos como Cinestill, Catlabs e Camerafilmphoto, atendendo às necessidades do filme e de informação para as pessoas de uma nova maneira digital.

O filme está disponível, portanto está tudo bem?

Então, se a disponibilidade dos filmes e materiais de desenvolvimento for assegurada por empresas impulsionadas pela paixão, então não temos problema - certo? Todos podem simplesmente revelar os seus filmes sozinhos, ou na loja de fotografia local dentro nos próximos 15 anos. Bem, é aqui que chegamos à parte interessante. Repara, se estás aqui a ler este artigo e concordas com a minha última declaração, então tu és o que eu chamo de um membro central da fotografia analógica.

Durante as minhas entrevistas, comecei a ver o mundo do meio analógico global dividido em quatro grupos: Os Colecionadores, os doidos por equipamento (Gearheads), os Artistas e os Recém-chegados.

O Colecionador

O Colecionador

Por defeito, o colecionador é um homem de 60 anos. Possui uma colecção de câmeras que juntou durante toda a sua vida. Os maiores acumuladores não puderam ajudar-se a eles próprios quando os preços caíram assim que o digital surgiu, como uma tempestade que acumulou centenas ou mesmo milhares de câmeras. Na verdade o colecionador não usa as suas câmeras e estas acumulam poeira e degradam-se lentamente, caminhando para um estado onde é necessário CLA (Clean, Lubricate, Adjust em português Limpar, Lubrificar e Ajustar). Mais importante ainda, o colecionador não usa filme, a menos que alguém lhe peça para fazer um retrato numa reunião familiar e ele dispara a sua Metz de confiança à cara de todos.

 
Doidos por Equipamento (Os Gearheads)

Doidos por Equipamento (Os Gearheads)

Normalmente, um engenheiro masculino de 34 anos, o Gearhead é alguém que gosta de montar coisas analógicas na sua câmera digital. Ele usou filme quando era jovem e/ou sonhou que seria óptimo apenas usar o filme e não ter de se preocupar com o pixel peeping do Lightroom. Ele ama a qualidade do material, quase mais do que o resultado final que produz. No entanto, ele não arrisca o regresso ao mundo analógico, de maneira que não utilizará mais do que 2 ou 3 rolos por ano.

 
O Artista

O Artista

Não tão fácil de ser definido por idade ou gênero, o Artista é mais um grupo filosófico. O Artista acredita no filme como um conceito - uma velha maneira análoga de preservar o tempo e a emoção ao longo dos séculos, sem a preocupação de se tornarem dados ilegíveis. O Artista usa muito filme, reveladores e papel fotográfico, mas a câmera em si é apenas um meio para que consigam atingir um determinado fim, o que geralmente os faz mal em ajudar os recém-chegados a obter uma entrada fácil ao usar uma câmera sem automação.

Não tão fortemente definido por idade ou gênero, o Artista é mais um grupo filosófico. O Artista acredita no filme como um conceito - uma velha maneira análoga de preservar o tempo e a emoção ao longo dos séculos, sem a preocupação de se tornarem dados ilegíveis. O Artista usa muito filme, desenvolvedores e papel fotográfico, mas a arte da câmera é apenas um meio para um fim para eles, o que geralmente faz com que estes não sejam a melhor ajudar para os recém-chegados começarem a usar uma câmera completamente manual

 
O Recém-Chegado

O Recém-Chegado

Os recém-chegados estão mais preocupados em ter as suas imagens nas redes sociais do que impressas. Eles querem digutalizações de boa qualidade e estão dispostos a enviar os seus filmes para outro país se o laboratório tiver a quantidade certa de seguidores do Instagram. Os recém-chegados adoram a Canon AE-1: s com um rolo de Portra no seu interior. Eles fotografam bastante com filme quando encontram uma boa câmera a funcionar correctamente e um bom laboratório que os atenda, uma vez que ainda não estão preparados para serem eles mesmos a revelarem os seus filmes, especialmente se foram a cores. Os três grupos anteriores podem não entender os processos dos recém-chegados, mas há uma filosofia estética encantadora na sua fotografia - eles apenas fazem as coisas de maneira diferente das gerações anteriores.

 

Obviamente que estes quatro grupos são categorias, e alguém pode ser 70% de um Gearhead com 20% de um artista e 10% de um recém-chegado. O núcleo do mundo analógico parece ser constituído por, metade Gearheads e a outra metade artistas de coração - é por isso que eles tendem a ter um desejo crescente, quase pouco saudavél, de fotografar em grande formato.

Como nota secundária, é muito interessante que diferentes países pareçam ser predominantemente um desses grupos. Na Finlândia nascemos mais ou menos para ser engenheiros (eu sou daqueles a que chamariam de artsy na Finlândia), então somos principalmente Gearheads e Colecionadores. O mesmo se aplica à Alemanha e à Coréia do Sul. No Vietname, os recém-chegados parecem constituir 90% da comunidade analógica, enquanto em Espanha existe uma comunidade muito composta por artistas.

Os quatro principais problemas para resolver agora que a luta pelo filme foi conquistada

Precisamos de proporcionar aos Recém-Chegados os serviços de que eles necessitam.

À luz de notícias recentes, acredito que a primeira luta pelo filme como formato já foi conquistada, e agora estamos a entrar no próximo conjunto de problemas. Compreender os quatro grupos de utilizadores básicos da comunidade analógica e a sua relação com a indústria levou-me a tirar algumas conclusões sobre quais são os maiores problemas para o movimento analógico nos próximos 15 anos. O principal é que é necessário fornecer aos Recém-Chegados os serviços de que necessitam para que a procura pelos serviços da indústria seja grande e contínua nos próximos 15 anos. É hora de apresentar os quatro principais problemas que o movimento analógica terá de enfrentar.

1. As máquinas de revelação e digitalização terão de se aposentar.

Mesmo que tudo se mantenha ou que cresça entre 1% e 5% ao ano nos próximos dez anos, temos um grande problema em mãos com a renovação da maquinaria em laboratórios. Fujitsu, Agfa, Kodak e Noritsu, os maiores fabricantes de máquinas de revelação automáticas já estão prestes a parar os seus serviços de suporte para máquinas analógicas. Apenas os melhores laboratórios irão sobreviver, isto porque os laboratórios especializados terão bons técnicos para cuidar da maquinaria, contudo irão ficar sem peças de substituição dentro de 10 a 15 anos. Os scanners vão desaparecer ainda mais cedo - uma vez que é cada vez mais difícil fazer a sua manutenção e atémesmo os modelos mais recentes de scanners de filmes profissionais executam o Windows XP.

Para um Gearhead, um colecionador ou um artista é indiferente. Eles vão tirar da sua estante o Jobo ou o novo Lab-Box e um scanner de mesa e continuar. A maioria dos laboratórios também farão isso, mas é aí que reside um problema. Quando o volume não é suficiente, os preços tendem a subir. Um recém-chegado nunca amadurecerá no movimento analógico quando tiver que pagar 50 euros por um pack de filme, revelação e digitalização - o que já acontece, por exemplo, no processo de revelação E-6 em toda a Europa. Para que continue a ser acessível para os recém-chegados, ainda é necessário aumentar o volume de filmes e concentrar o negócio existente nas empresas impulsionadas pela paixão.

A lovely camera.

2. A produção de grandes linhas de filmes terão de se aposentar

Sim, parece bom para a Kodak e a Fujifilm por enquanto, mas um dia eles vão fazer os FP-100s e dizer que simplesmente não conseguem trabalhar com a maquinaria antiga e a procura pelo produto não justifica que a nova máquina seja tão grande. Ao mesmo tempo, todas as avós que possuem a sua compacta analógica ocasional deixarão esta terra e, como um grande fim, isso significa que não haverá Fujifilm C200, Superia 400, Kodak Color Plus ou qualquer filme a cores que se possa obter por menos de 4€ o rolo. Tal como acontece com as máquinas de revelação, o núcleo não se importará, mas as massas recém-chegadas irão.

3. As câmeras vão se aposentar, se não houver serviços para elas.

Quase todos os utilizadores de filmes com os quais eu conversei no processo da entrevista me disseram que conhecem o único rapaz da sua zona que ainda presta o serviço, e que ele é um dos que vem da Era do Colecionador. Dentro de cinco a dez anos, a maioria deles vai-se aposentar e países inteiros v\ao ficar sem um serviço adequado para onde possam enviar o seu equipamento.

Bem, não podemos simplesmente imprimir as câmeras em 3D ou pedir a fábricas chinesas que fabriquem câmeras remodeladas? Bem, podemos, mas brincar com Holgas de plástico não vai entusiasmar um recém-chegado para toda a vida. Não quando a opção é fotografar memórias de realidade virtual digital facilmente com um smartphone. Eles vão querer câmeras mecanizadas adequadas e não podem custar muito.

4. As câmeras já disponíveis não se encontram realmente disponíveis

A maioria das câmeras que um recém-chegado gostaria de usar, está na posse dos colecionadores. Os Colecionadores não estão a vender o seu equipamento on-line e, se o fizerem, nem todos os recém-chegados vão querer arriscar ter de limpar lubrificar e ajustar a câmera pelos seus próprios meios depois de um acordo com um Colecionador no craigslist. As câmeras têm que começar a mudar-se e a encontrar novas casas que lhes dêem amor. E não, embora existam mais câmeras nos EUA, Japão e Europa do que utilizadores, a realidade é que o analógico parece estar a crescer mais rápido em países como a Rússia, o Vietname, a Indonésia, a Turquia e a China - e eles não têm stock antigo em a rechear armários ou em mercados de rua.

Existe alguma solução que salve a fotografia analógica?

Na Finlândia, temos esta mentalidade, de que não protestamos publicamente sobre alguma coisa sem realmente tentar arranjar solução para a mesma. É uma coisa finlandesa muito essencial. Por isso, não estava a escrever este artigo sem ter uma solução. Então, como corrigimos isso?

Bem, problemas 1 e 2, o desaparecimento da maquinaria pesadas dos laboratórios é corrigido pelo aumento da procura. A procura pode aumentar corrigindo os problemas 3 e 4 que estão a restringir o fluxo de Recém-Chegados para o analógico. Para corrigir os problemas 3 e 4, tenho um plano que pode ser resumido numa frase: "Salvar Câmeras Analógicas”

A lovely camera. A lovely camera. A lovely camera. A lovely camera.

Ambos, 3 e 4, são corrigidos ao conectar os recém-chegados com empresas já existentes ou apenas empresas emergentes, de uma maneira inovadora. As empresas existentes têm os contactos para obter as câmeras de colecionadores e repará-las para serem utilizadas, mas nem todas falam a língua da geração do Recém-Chegado. Para que essa tradução se torne realidade, comecei uma empresa start-up chamada cameraventures.com.

Para salvar a fotografia analógica, temos de salvar as câmeras.

Mas espera aí. Não são as startups que são todas sobre monetização e alto risco de falha? Bem, algumas startups tecnológicas podem ser, mas há muitas startups com o foco no efeito e não no dinheiro. Nós somos uma delas. Pretendemos salvar a parte da fotografia analógica que sabemos como salvar - as câmeras. E quando se trata do risco de falha, seria muito maior, se eu não tivesse feito isto já uma vez.

Tu já fizeste isso? Bem, sim, mas apenas em pequena escala, na Finlândia, onde construí uma plataforma chamada Kameratori.com, onde todas as lojas de câmeras analógicas fazem os seus negócios. Temos um distribuidor de filmes local, fornecemos os melhores e mais modernos serviços de desenvolvimento no país e até temos a nossa própria equipa de técnicos com quatro Gearheads que aprendem com dois Colecionadores.

Trabalhar juntos globalmente é a chave

No entanto, a Finlândia é muito pequena, e para recuperar câmeras analógicas suficientes para manter a procura global alta, eu preciso da tua ajuda. A Cameraventures.com pretende fazer com que o que aconteceu na Finlândia aconteça a nível global, para fazer isso, preciso de mapear as casas apaixonadas por fotografia analógica de todo mundo de forma a que possam trabalhar juntas. Preciso que tu me digas qual é a loja local que realmente se importa com o movimento analógico?

Camera in a field of grain.

O que eu faço com essa informação depois disso? Bem, a nossa equipa vai verificá-la novamente, estruturá-la e disponibilizá-la on-line para que toda a comunidade mundial possa desfrutar e usar. A nossa equipa tentará fazer com que esta seja a melhor visualização online possível (mapa, gráfico, aplicação, etc.) dos principais criadores de conteúdo, casas de revelação, lojas de câmeras, distribuidores de filmes,fabricantes de acessórios e centros de serviços para serem pesquisados pela comunidade. Com a ajuda de alguns amigos em redor do mundo (isto foi lançado em cinco contextos / idiomas diferentes até agora), a nossa pequena equipa da Finlândia pode mapear os primeiros mapas globais do mundo renascido da fotografia analógica.

Isso fará com que os recursos para os Recém-Chegados sejam facilmente acessíveis e conectados para os membros principais. Ao mesmo tempo, o potencial de crescimento da indústria concentra-se nos prestadores de serviços mais apaixonados e profissionais - dando-lhes mais espaço para desenvolver o movimento, algo que já aconteceu, por exemplo, no lado do filme instantâneo da fotografia analógica com o Impossible Project.

Juntos, os pequenos negócios apaixonados em todo o mundo, talvez, pudessem encontrar soluções para os problemas 3 e 4, de um modo que daqui a 15 anos em possa continuar a fazer isto - e, mais importante, para que meu filho possa fotografar com os seus primeiros filmes dentro de 15 anos.

Se queres ajudar a criar um mapa global para salvar as câmeras analógicas, vai a cameraventures.com/help e preenche o formulário. É o primeiro passo para #saveanalogcameras (salvar as câmeras analógicas).

 
Preenche o Formulário

Alguma questão? Não hesites em contactar-nos em info@cameraventures.com, @cameraventures no Instagram e no Twitter envia-me uma mensagem no LinkedIn.